sábado, 25 de maio de 2013

A neurocibernética e a teoria de Anokhin

Piotr Kuzmitch Anokhin (1898-1974).


No dia 17 de setembro de 1987, fui convidado para falar no III Congresso Mineiro de Hipnologia e Medicina Psicossomática, realizado no Grande Hotel de Caxambu. O tema era: A neurocibernética e a teoria de Anokhin. O convidado, na realidade, era o meu grande amigo Dr. João Belline Burza, cuja biografia apresentamos na postagem anterior. Na impossibilidade de comparecer, em decorrência de problemas de saúde, o Dr. Burza gentilmente indicou-me para fazer esta palestra. 

Difícil tarefa esta de substituir o Dr. João Belline Burza, profundo conhecedor da Teoria do Sistema Funcional de Anokhin. Burza trabalhou e pesquisou com Anokhin, em Moscou, no Instituto de Fisiologia Normal, da Academia de Ciências da União Soviética, entre 1964 e 1974. Eram grandes amigos e, frequentemente, o Dr. Burza era convidado por Anokhin para passar o fim de semana na dacha (chácara) deste último. Ali, entre outras coisas, como conversar sobre os trabalhos em neurofisiologia (uma precursora das neurociências), conversavam sobre tudo e também ouviam muita música. Ambos eram apaixonados pelas composições de Beethoven, conforme confidenciou-me o Dr. Burza numa de minhas estadas em sua casa, em Ouro Fino, Minas Gerais.

Como eu vinha, há algum tempo, estimulado pelo Dr. Burza, estudando a teoria de Anokhin, discípulo da última geração de Ivan Petrovitch Pavlov, o descobridor dos Reflexos Condicionados, laureado com o Prêmio Nobel de medicina, em 1904, aceitei esta incumbência na certeza de que jamais poderia sequer me aproximar do brilho e do profundo conhecimento sobre tal teoria que o Dr. Burza possuia. Tentei fazer o melhor que eu podia e o resultado apresento aqui, no link abaixo. A qualidade da visualização gráfica do texto não está boa, pois ele foi digitalizado tendo por base o original que se encontra em meu poder e havia sido datilografado. Os caracteres encontram-se um tanto apagados. Entretanto, com esforço, os interessados poderão encontrar aqui uma síntese das teorias de Anokhin. 

Anokhin começou a desenvolver suas teorias ainda na década de 1930, quando trabalhava com Pavlov. Até o seu falecimento, em 1974, sua teoria teve um desenvolvimento extraordinário. Suas idéias se anteciparam às de Norbert Wiener, o criador da cibernética, em aproximadamente 10 anos. Na foto abaixo vemos ambos em um colóquio nos jardins do Instituto de Fisiologia, em Moscou, quando de uma visita de Wiener a Anokhin, em 1961.


Norbert Wiener e P.K. Anokhin, em Moscou, em 1961.



Abaixo segue o link com o texto de minha apresentação (recomendamos abri-lo com o Google Chrome).


https://docs.google.com/file/d/0B9zBbq3OaOaNMXFnZ2Eyb2tuVFk/edit?usp=sharing

O Prof. Konstantin Sudakov foi o sucessor de Anokhin na cátedra de fisiologia e chefe do Instituto de Fisiologia Normal da Academia de Ciências da USSR. Atualmente, apesar de aposentado, continua um ativo pesquisador. Foi ele quem recebeu-me em Moscou, em 1981, para uma visita ao seu Instituto, por intermediação do Dr. Burza. 

Abaixo segue o link de um dos inúmeros artigos científicos publicados pelo Prof. Sudakov em inúmeras revistas mundo afora. Aborda exatamente o tema da teoria dos Sistemas Funcionais de Anokhin. Um excelente texto para os interessados neste fascinante tema. Recomendamos abri-lo com o Google Chrome.

http://xa.yimg.com/kq/groups/28073569/1793269254/name/19+-+Teoria+dos+sistemas+funcionais+na+escola++++++cient%C3%ADfica+de+P.+K.+Anokhin.pdf

Saudação ao Dr. João Belline Burza




João Belline Burza (1918-1989).

Em 1986, tive a honra de receber em minha casa o Dr. João Belline Burza, um dos mais brilhantes neurocientistas brasileiros do período entre 1946 e 1964, quando, por motivos políticos, teve de se exilar na União Soviética, até 1974. Quando retornou, estava com seus direitos políticos cassados e foi preso ainda na escada do avião em Viracopos, onde toda a sua família e muitos membros da comunidade da cidade de Ouro Fino, Sul de Minas, lá o esperavam. Ficou preso incomunicável por seis meses sofrendo torturas psicológicas. Com o auxílio de políticos, dentre os quais o ex-governador de São Paulo Franco Montoro, e com a interferência de militares de alto coturno, amigos da família, foi liberado. O Dr. Burza, algum tempo depois de recuperado, parcialmente, diga-se de passagem, voltou a clinicar em São Paulo. Alguns meses depois de sua libertação sofreu um primeiro AVC, provavelmente decorrente das provações e torturas psicológicas recebidas. Sua saúde deteriorou-se rapidamente, quando foi aconselhado por seu médico a retornar para a casa materna em Ouro Fino. Assim o fez e logo granjeou grande amizade e clientela em Ouro Fino, em toda a região do Sul de Minas. Vinham clientes de todo o Brasil para se consultar com ele, dada sua fama de grande e competente médico, além de exemplar figura humana.

Quando foi preso, o Dr. Burza quase teve destruídos os originais do livro que havia escrito por quase dez anos na União Soviética, intitulado: "Cérebro, Neurônio e Sinapse". Continuamente, os militares que o mantinham cativo ameaçavam tomar essa infame medida. Ao final de muito sofrimento, quando foi libertado, teve seus originais devolvidos em finais de 1974. Voltou a clinicar em São Paulo, onde estudou, trabalhou e pesquisou desde moço. Ele era oriundo de uma família de italianos que se estabeleceram em Ouro Fino no início do século XX. Seu pai, Antônio Burza, era o melhor alfaiate da cidade e criou todos os 5 filhos (apenas o Dr. Burza de homem) da melhor forma que pode, usando seus parcos recursos financeiros. Todos se tornaram grandes personagens nesta bela e acolhedora cidade do interior mineiro. O pai falecera havia muitos anos, quando o Dr. Burza era ainda estudante.

Conheci o Dr. Burza através de um amigo comum, o Dr. Wilson Castelo de Almeida, meu antigo professor de Medicina Preventiva na Faculdade de Medicina da UFMG, também de Ouro Fino, e que havia deixado Belo Horizonte para alçar novos voos em São Paulo. Eu havia lançado em 1975 meu primeiro livro, intitulado "Introdução à Psiquiatria Reflexológica", um estudo sobre as teorias e pesquisas do grande cientista russo Ivan Petrovitch Pavlov, prêmio Nobel de medicina em 1904, em decorrência de sua descoberta dos Reflexos Condicionados. Então, eu era um adepto dos métodos pavlovianos na clínica e terapêutica psiquiátricas. Somente mais tarde, fui adotando, cada vez mais, os princípios e os métodos terapêuticos das teorias da aprendizagem e do behaviorismo (Terapia Comportamental). Posteriormente, abracei integralmente a ciência cognitiva e seu corolário terapêutico para transtornos mentais e psicológicos: a Terapia Cognitiva.


Dr. João Belline Burza e o autor. Outubro de 1980.
Visita à sua casa em Ouro Fino (MG).
Foto em frente à escada de sua residência.


O Dr. Burza era uma referência para mim, desde que iniciei minha Residência Médica, em psiquiatria, em 1969, e encetei meus primeiros estudos da teoria pavloviana. Ele já era um mestre e pesquisador consagrado, conhecido largamente no Brasil e no Exterior. Ele já havia estado na União Soviética por algumas vezes, quando trabalhou com alguns dos luminares da neurofisiologia e da psiquiatria pavlovianas. Havia também escrito vários trabalhos muito conhecidos e traduzido um livro, que adquiri em minhas andanças por bibliotecas e sebos do Rio de Janeiro e São Paulo, intitulado "A Ciência dos Sonhos - Teoria Fisiológica", de Feodor Petrovitch Maiorov, publicado em São Paulo, em 1962, pela Editora Fulgor. Maiorov havia sido discípulo e trabalhado com Pavlov, nas décadas de 1920 e 1930. Trabalhou sempre na famosa "Torre do Silêncio", nos laboratórios de Pavlov, em Leningrado (atual São Petersburgo), laboratórios esses que tive a honra e o orgulho de conhecer quando visitei a União Soviética em 1981. Esta viagem, claro, naqueles tempos, não seria possível sem a preciosa recomendação do Dr. Burza. O livro de Maiorov era considerado uma bíblia da ciência dos sonhos pelos pavlovianos. Foi uma relíquia que, quando descobri, em São Paulo, lá pelos idos de 1972/73, imediatamente o adquiri, li e reli inúmeras vezes e o guardo, hoje, em minha biblioteca, com muito carinho. O prólogo, a tradução e o apêndice do livro no Brasil são de autoria do Dr. Burza. No frontispício do mesmo encontra-se reproduzida uma dedicatória de Maiorov ao Dr. Burza, em russo, cuja tradução é a seguinte: "Ao querido João Belline Burza, numa grata recordação e com os meus anseios de que continue a criação desta obra. F. Maiorov. Leningrado, 15-03-1958".

O meu exemplar desta preciosidade, posteriormente, recebeu, a meu pedido, uma dedicatória do próprio Dr. Burza, assim escrito: "A meu caro e ilustre Antônio Carlos: uma grata recordação de nosso encontro em São Paulo e como marca de nossa amizade. Burza. 7/3/80".

Depois de apresentados pelo Dr. Wilson, trocamos correspondência por algum tempo. Em 1979, eu e minha família o visitamos em Ouro Fino, quando fomos recebidos como se fôssemos dignitários estrangeiros na residência de sua mãe, Dona Luiza, onde ficamos alojados no próprio quarto da matriarca. Uma recepção reservada somente aos amigos chegados de muito tempo. E nossa amizade havia começado apenas dois anos antes, quando, após o primeiro contato, enviei-lhe um exemplar de meu livro.

Em sua casa fomos maravilhosamente atendidos por suas duas irmãs solteiras, que residiam na mesma casa, Maria Luiza e Julieta Burza, duas figura honoráveis da cidade de Ouro Fino. A casa dos Burza era por demais conhecida na cidade, pois era um verdadeiro museu. Em sua sala de visitas havia uma coleção de peças de arte, em forma de esculturas, quadros e enfeites os mais diversos, de origem italiana e alguns russos. Dentre estes últimos se destacava um enorme samovar, de quase um metro de altura, que havia sido trazido de Moscou para o Brasil na bagagem de um diplomata. Só assim esta valiosíssima peça, do século XIX, poderia sair da União Soviética, já que havia estritas leis proibindo a exportação de antiguidades. Havia pinturas feitas nas próprias paredes da sala, do alpendre e de alguns quartos, o que era comum em casas de famílias cultas no Brasil, do primeiro terço do século XX. Em geral, reproduziam temas bucólicos, tais como jardins, campos, matas, flores e animais silvestres. Foram dias inesquecíveis, cerca de três, que passamos junto aos Burza. Meus filhos eram crianças e até hoje se lembram das pessoas e das peças de arte dos Burza. Voltamos lá mais umas duas vezes.

As fotos a seguir foram extraídas do blog da jornalista Clara Favilla, natural de Ouro Fino e residente em Brasília, grande amiga da família Burza. O link da Sra. Favilla é:


http://blogdacidadedeourofino.blogspot.com.br/2009/09/linda-casa-da-julieta-burza.html


(recomendamos abri-lo com o Google Chrome).

A casa da família Burza. O belo jardim e o estilo
arquitetônico art-nouveau, de princípio do século XX.
Um monumento arquitetônico que deveria ser
tombado pela Prefeitura Municipal
de Ouro Fino. Foto Clara Favilla.

A escada dando para o alpendre com seus
afrescos nas paredes. Foto Clara Favilla.

Afresco à esquerda da entrada.
Foto Clara Favilla.


Afrescos em duas paredes à direita da entrada.
Foto Clara Favilla.


Sala de visitas da casa da família Burza.
Em primeiro plano, o piano de calda de Julieta Burza.

Foto Clara Favilla.


Cristaleira e objetos de arte importados da Itália.
Foto Clara Favilla.


Móveis do início do século XX. Na parede fotos do
Sr. Antônio Burza, o patriarca, e do rei da Itália,
 Vitório Emmanuelle III. Sobre o móvel, foto de
formatura do Dr. João Belline Burza.

Foto Clara Favilla.


Espelho e lavabo de porcelanas italianas.
Foto Clara Favilla.


Em 28 de agosto de 1986, compareci à Bienal do Livro de São Paulo, realizada no Ibirapuera, onde o Dr. Burza lançou, finalmente, seu livro "Cérebro, Neurônio, Sinapse - Teoria do sistema funcional de P.K. Anohin, seguidor avançado de I.P. Pavlov". Senti toda a sua felicidade naqueles momentos de glória e reconhecimento e eu não poderia estar ausente. Guardo também com muito carinho, em minhas estantes de livros, esta obra imorredoura. Estava ele acompanhado de sua dileta irmã e colaboradora, quase secretária, Maria Luiza Burza. Sua dedicatória, com sua letra já bastante tremida, e quase ilegível em função de outros AVCs que sofrera, foi: "Para Antônio Carlos, a homenagem e a admiração do Burza. 28/8/86". Guardo comigo algumas cartas que ele me enviou, onde se pode ver, nitidamente, a deterioração de sua escrita em função do agravamento de seu quadro neurológico.



Moscou, janeiro de 1958. Casa dos Cientistas. Jubileu P.K. Anokhin
(60o. aniversário). Da esquerda para a direita: Prof. V.V. Parin,
vice-presidente da Academia de Ciências Médicas da URSS;
Anokhin; Prof. Horsley Gantt, chefe dos Laboratórios Pavlovianos
da Universidade Johns Hopkins (Estados Unidos) e Dr. J.B. Burza.
In: Burza, J.B. Cérebro, neurônio, sinapse. São Paulo.
Ed. Ícone, 1986. Pg. 78.

São Paulo, agosto de 1959. Aeroporto de Congonhas,
quando da visita do Prof. P.K. Anokhin ao Brasil.
Da esquerda para a direita: Núncio Carelli;
Dr. Ideval Alcântara de Carvalho; Oscar de Arruda Moraes;
Dr. J.B. Burza. Sentado, P.K. Anokhin, ladeado pela
família Carelli.
In: Burza, J.B. Cérebro, neurônio, sinapse. São Paulo.
Ed. Ícone, 1986. Pg. 80.
Moscou, janeiro de 1968. Cátedra de Fisiologia do 1o. Instituto de Medicina
de Moscou. Jubileu do Acadêmico P. K. Anokhin (70o. aniversário).
Da esquerda para a direita: Prof. V.A. Chidlovski, chefe da Cátedra de
Fisiologia do Instituto de Aperfeiçoamento Médico de Moscou;
P.K. Anokhin; Prof. Igor Orlov, chefe do laboratório de
Neuroquímica Funcional do Instituto Setchenov de Fisiologia;
Dr. J.B. Burza.
In: Burza, J.B. Cérebro, neurônio, sinapse. São Paulo.
Ed. Ícone, 1986. Pg. 84.

Em novembro de 1986, convenci o Prof. Austregésilo de Mendonça, proprietário da Casa de Saúde Santa Maria, onde eu trabalhava há vários anos, grande figura humana, que já conhecia o Dr. Burza da década de 1950 e início de 1960, quando este era ainda professor da Universidade de São Paulo, a convidá-lo para vir a Belo Horizonte. O Prof. Austregésilo, muito bem articulado, apoiado pelo firme incentivo do Prof. Paulo Saraiva, da Academia Mineira de Medicina, meu grande amigo e também médico no mesmo hospital, organizara com a Diretoria da Associação Médica de Minas Gerais a entrega do título de Sócio Honorário da AMMG para o Dr. Burza.

Assim é que recebemos em nossa casa o Dr. João Belline Burza, com seu ajudante, meio cuidador dadas suas dificuldades psicomotoras, e suas irmãs Maria Luiza e Julieta Burza. À noite, era uma quarta-feira, dia das tradicionais reuniões do Centro de Estudos Austregésilo de Mendonça, houve a sessão de gala de entrega do título, fornecido pelo Presidente da AMMG. Na ocasião, proferi o discurso, escrito, dada a variedade e riqueza da vida do Dr. Burza, para que não houvesse o mínimo erro. Ficamos todos emocionados. Posteriormente, o Prof. Austregésilo, com sua habitual verve, me confidenciou que ficou preocupado com o estado emocional do homenageado e receou que ele tivesse uma apoplexia (AVC fatal) durante a solenidade. Este texto agora tenho o orgulho de reproduzir aqui, depois de tantos anos guardado em meus arquivos. Faço-o com a certeza de que homenageio uma das figuras humanas mais importantes de minha vida, dentre tantas outras que conheci.

O Dr. Burza faleceu em decorrência de outro AVC (tivera vários) em 1989, logo após meu retorno de um estágio na França, em 1988. Compareci à Missa de Sétimo Dia em Ouro Fino, onde, pela última vez, tive contato com esta bela casa. Dele guardo as mais gratas recordações e serei eternamente reconhecido a ele pelas suas orientações, pelo seu exemplo de trabalho e seriedade. Admiráveis em sua personalidade foram suas convicções políticas e ideológicas. Foi um marxista convicto até o fim. Apesar de eu não mais comungar dos mesmos ideais marxistas-leninistas, o que eu fizera em minha juventude, sempre respeitei suas posições firmes e nunca discutimos qualquer tema que fosse que envolvesse política ou ideologia. Uma vez, quando de um de nossos últimos encontros, lembro-me de ter-lhe perguntado se ainda acreditava nos princípios marxistas. Respondeu-me incontinenti: "Acredito como agora vejo a palma de minha mão". Fiquei impressionado com suas convicções e certezas. Não mais falamos sobre isso. Nossas conversas, fora os temas neurocientíficos, eram de trivialidades e generalidades. Geralmente, eu o ouvia absorto relatar suas experiências de vida na União Soviética, país que conheceu profundamente. Tanto que se casou com uma cidadã soviética, que lhe antecedeu no seu retorno ao Brasil. A ela nada ocorreu quando chegou, dada a recente abertura diplomática do Brasil com a União Soviética, que a ditadura militar (o governo era de Geisel) havia tomado a iniciativa de realizar em função de boas perspectivas de negócios com o gigante euro-asiático.

Abaixo segue-se o texto de minha fala.

https://docs.google.com/file/d/0B9zBbq3OaOaNeHFyczh6Q0d6cFU/edit

(recomendamos abri-lo com o Google Chrome).

Para aqueles que desejarem conhecer mais sobre este grande cientista brasileiro recomendo uma visita ao link abaixo, da revista Histórica, do Arquivo Público do Estado de São Paulo, onde há um excelente texto de Luciana da Conceição Feltrin sobre o Dr. João Belline Burza.

http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao39/materia03/

(recomendamos abri-lo com o Google Chrome).

A irmã do Dr. Burza, Maria Luiza, faleceu há aproximadamente dez anos. No início de maio deste ano de 2013 fui surpreendido com a notícia do falecimento de Julieta Burza. A tristeza que me invadiu não pode ser aquilatada em palavras. 

Que todos descansem em paz!






Carta que o Dr. Burza enviou, de Moscou, em 1968, para seu colega
Prof. Carlos da Silva Lacaz, um dos mais eminentes professores
da história da USP. Cópia gentilmente enviada pelo seu sobrinho
Dr. Leonardo Piovesan Mendonça, médico geriatra em São Paulo.




Carta que o Dr. Burza escreveu para o Prof. Lacaz, de Ouro Fino, em 1978.
Cortesia do Dr. Leonardo Piovesan Mendonça.



Dr. Burza, citado na Revista Paulista de Medicina, em 1984.
Cortesia do Dr. Leonardo Piovesan Mendonça.


Convite para a inauguração do retrato do Dr. Burza na
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em 1989.
Cortesia do Dr. Leonardo Piovesan Mendonça.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Fobia Social

Este texto da Dra. Claudia Agramonte Saba é uma excelente resenha sobre a Fobia Social. Tão didático que compartilho com todos os amigos que desejam um melhor esclarecimento sobre este transtorno tão comum nos tempos atuais.
O original pode ser encontrado no link abaixo:

http://claudiaagramonte.blogspot.com.br/2008/11/fobia-social.html


FOBIA SOCIAL



Por Claudia Agramonte Saba

La fobia social consiste en una extrema timidez, una intensa timidez, caracterizada por un miedo y ansiedad marcados y persistentes a enfrentar determinadas situaciones sociales, a la interacción con los demás o simplemente a ser observados en cualquier situación, hasta tal punto que lo dicho anteriormente influye directamente en la vida diaria de quien la padece.

Las personas afectadas por la fobia social o ansiedad social son conscientes que sus sensaciones son irracionales, pero a pesar de esto hacen lo posible para evitar enfrentarse a la situación temida pues suelen sufrir a consecuencia de la ansiedad anticipatoria, como consecuencia comienza una conducta evitativa de cualquier situación social.

Una importante característica en la ansiedad social o fobia social, es una intensa ansiedad antes de que ocurran los hechos temidos, es lo que se llama ansiedad anticipatoria, es decir, las personas que padecen de fobia social comienzan a preocuparse y a sentir ansiedad ante la situación temida mucho tiempo antes que tener que afrontarla, lo que da como resultado que cuando se afronta la situación, ésta es llevada a cabo en peores condiciones, ya que el estado de nerviosismo provoca un aumento de la ansiedad anticipatoria y este dificultará el desempeño para una próxima vez que se afronte a la situación.

En la Fobia Social el miedo se centra en SITUACIONES, y además altera totalmente nuestra vida ya que nos vemos obligados a vivir en sociedad.Todos solemos experimentar incertidumbre, ansiedad e inseguridad al conocer a personas nuevas, pero una vez roto el hielo, casi todos logramos convertir esos encuentros en una experiencia agradable. En cambio las personas con fobia social experimentan un grado de ansiedad mucho más elevado en estas
situaciones.

Puede ser tanto el grado de ansiedad o vergüenza que se produzcan señales físicas delatadoras (sudor, temblor muscular y de voz, rubor, etc.) que nos hacen más vulnerables e inseguros y la situación social, en vez de convertirse en un tiempo aceptable en algo agradable se transforma en algo cada vez más desagradable, con lo que nos desanima a pasar esos malos tragos y utilizar subterfugios de evitación y control de estas penosas situaciones.

El deseo que solemos tener todos de formar parte de los grupos sociales, ser valorados y apreciados se ve gravemente disminuido, con la consiguiente baja autoestima y complejo de inferioridad.

Elementos más importantes de la fobia social:

. Preocupación por llegar a ser el centro de atención cada vez que nos encontramos con alguien.

.Temor a propósito de que alguien nos mire y observe lo que estamos haciendo.

.Temor a que nos presenten.

.Temor a propósito de comer o beber en público.

.Dificultad para manejarse en comercios y relaciones administrativas.

.Terror a dirigirse a un público o grupo de amigos.

.Aversión a realizar llamadas telefónicas y realizar gestiones.

.Dificultad para confrontarse en el trabajo o hacer reclamaciones (incluso si se tiene la razón y el derecho de hacerlo).

.Las fiestas y reuniones son una pesadilla y el comportamiento de la persona que tiene fobia social consiste en ponerse cerca de la puerta o encargarse de discretas tareas que le permitan huir de la situación.

.Tendencia a rehuir espacios cerrados donde hay gente.

. Sensación de que todos nos miran y nos desvalorizan.

.Temor a que nuestras intervenciones parezcan ridículas, pobres o inadecuadas.

.Miedo a 'quedarnos en blanco'.
Los síntomas físicos

Los síntomas de la ansiedad que aparecen en la persona que tiene fobia social cuando se expone a lo temido pueden llegar a ser el símbolo de 'lo peor' que le sucede:

-Sequedad de boca (junto a la idea de que uno se 'atrabancará', tartamudeará, toserá, no podrá hablar, etc.).

-Palpitaciones (el corazón parece correr demasiado deprisa o irregularmente y eso producir desmayos, ataques cardíacos, mareos, o algún tipo de colapso) .

-Temblores de manos, pies o voz que pueden ser rápidamente observados y delatarnos como 'inferiores' o 'penosos' o 'impresentables'..

-Sudor (en las manos que luego puede que tengamos que presentar en un saludo; sudor corporal que traspasa la ropa y nos avergüenza haciendo nos aparecer como 'indeseables' o 'repugnantes'). Rubor (angustia + sentimientos intensos de vergüenza).

-Falta de concentración (que nos haga olvidar datos que queríamos decir o desorganice el curso del pensamiento de modo que no sepamos de donde veníamos o a donde queríamos llegar)
La Fobia Social afecta de manera importante a nuestra vida, nos empobrece reduciendo a la mitad nuestra vida social, nuestras posibilidades de ocio y progreso profesional. La frustración que todo ello implica puede reflejarse indirectamente en forma de desánimo general (a veces es causa de caer en un depresión tras un larga etapa vital de sufrimiento) e irritación descontrolada con el circulo familiar íntimo.
 
Las relaciones que exigen iniciativa, sostén y aportación por nuestra parte se pueden llegar a ver gravemente resentidas y romperse. Elimina aquellos oportunidades que suelen provenir de la actividad social (hacer amigos en el colegio o en el trabajo, participar en las equipos, promocionarse en el trabajo, etc.) .
Puede ocurrirle a un fóbico social que rechace un buen trabajo solamente por el miedo que tiene a las nuevas responsabilidades, especialmente si tiene que tratar con muchas personas y hacer reuniones. De 1-2 por mil de los hombres y 2-3 por mil de las mujeres padecen fobia social. Es una dificultad que se conoce bien, tanto el porqué se produce como el modo en el que puede tratarse.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Transtorno Obsessivo-Compulsivo



O Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) pode ser definido como uma doença que apresenta sinais e sintomas de obsessões e/ou compulsões. As obsessões são pensamentos, impulsos ou imagens mentais recorrentes, invasivos e desagradáveis, reconhecidos como próprios pelo indivíduo (não são estranhos à sua pessoa nem provocados por alguma força superior) que causam ansiedade ou mal-estar relevantes, tomam tempo e interferem negativamente em suas atividade e/ou relacionamentos. As compulsões são comportamentos ou atos mentais repetitivos, que o indivíduo é levado a executar voluntariamente em resposta a uma obsessão ou de acordo com regras rígidas, para neutralizar/reduzir a ansiedade e o desconforto, ou prevenir (de forma excessiva e não realística) algum evento temido. Enquanto as obsessões geram desconforto emocional ou ansiedade, os rituais compulsivos tendem a aliviá-los, não sendo em si mesmo prazerosos. Essa função de neutralização ou atenuação imediata da ansiedade mantém as compulsões num ciclo de difícil rompimento em que, paradoxalmente, para sentir-se melhor o indivíduo se sacrifica.


O TOC não é uma doença nova. As primeiras descrições da mesma remontam á Antiguidade. Entretanto, somente há umas três ou quatro décadas é que a conhecemos mais aprofundadamente. Mas foi somente no final da década de 1990 é que as novas classificações internacionais deram-lhe um destaque maior e ampliaram o leque de transtornos englobados agora dentro do nome Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo (TEOC). Na verdade, esta é uma doença heterogênea, que pode acometer alguém na sua forma clássica isolada ou com poucas doenças paralelas (comorbidades), mas pode também vir associada a outras patologias como a Síndrome de Tourette, o Transtorno Dismórfico Corporal, a hipocondria, os tiques, e os quadros definidos de compulsões, como a compulsão para o jogo, para a ingestão de álcool ou drogas, para compras, para sexo, etc. Mais freqüentemente, o TOC vem associado a transtornos ansiosos como Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), Transtorno do Pânico e Fobia Social. O TOC também pode vir associado a comportamentos do tipo grooming (movimentos repetitivos): tricotilomania (arrancar cabelos deixando falhas localizadas – alopécia, ou em extensas áreas do couro cabeludo), dermatotilexomania (escarificação da pele pelo coçar excessivo ou pela utilização de algum objeto que pode lesar a pele) e onicofagia (roer as unhas).


O TOC também não é uma doença rara e de prognóstico ruim, como era considerado até há pouco mais de 20 anos. Nos EUA, ele é visto como o quarto transtorno psiquiátrico mais freqüente, após as fobias, o abuso de substâncias psicoativas e as depressões maiores, tendo uma prevalência ao longo da vida de aproximadamente entre 1,5% a 2,5% da população em geral.  

Histórico 

Há uma série de comportamentos repetitivos observados nos animais que têm alguma semelhança com o TOC. Tais comportamentos representam um padrão fixo de ação e receberam o nome de  grooming, palavra inglesa que não tem tradução para o português mas que significa um comportamento estereotipado, próprio de cada espécie: lamber os pêlos, alisá-los, molhar o corpo com saliva, levantar as penas em aves com o bico. Têm a finalidade de limpeza, manutenção da temperatura (evaporação da saliva), e também para o estabelecimento de regras hierárquicas dentro de um grupo (os animais colocados em um nível mais abaixo dentro da hierarquia do grupo lambem os que ficam em um nível acima). Ao contrário do que se pensa, nem sempre o diagnóstico do TOC é fácil. Enquanto sintomas típicos como obsessões de contaminação e rituais de limpeza, verificação ou contagem, que são dos mais comuns, costumam ser prontamente identificados, sintomas como obsessões agressivas e somáticas, lentidão obsessiva e rituais de colecionamento, entre outros, são menos conhecidos.


É difícil estabelecer o limite entre o que é o colecionamento normal ou “mania” do verdadeiro ritual compulsivo da doença. A preocupação com a ordem e os números vem desde Pitágoras. Para ele, o cosmos (o belo) opõe-se ao “caos”, como a forma ao amorfo, como o limite a desordem. Para os pitagóricos, prevalece a equação: simetria = número = estética. A mitologia grega nos revela numerosos exemplos da atividade obsessiva, sempre repetitiva e paralisante, apesar de aderida à contínua atividade. Na Odisséia de Homero (Canto IX), o herói Ulisses assim relata seu encontro com Sísifo: “Também vi Sísifo extenuando-se e sofrendo: empurrava uma pedra enorme com as mãos. Ele a arrastava até o cume, mas quando estava a ponto de, finalmente, atingir o alto do morro, o peso excessivo o empurrava para baixo. Novamente então a pedra impiedosa rolava para o vale. Entretanto ele reiniciava o trabalho e empurrava-a, ficando com o corpo banhado de suor; e ao redor de sua cabeça pairava uma nuvem de poeira”.  Quando a idéia obsessiva ou o ritual compulsivo deixa de trazer algum prazer ao indivíduo, a lhe aumentar a carga de ansiedade e expectativa, e a prejudicar-lhe em suas tarefas do dia-a-dia, aí sim é que a ciência médica considera a idéia ou o ritual uma doença.
 
 

Desde o início do Século XIX a doença começou a ser caracterizada pelos médicos. Na França, Esquirol (1772-1840) considerava a doença uma “monomania volitiva”, caracterizada por atitudes instintivas e irresistíveis, cuja origem não estaria nem na razão nem nas emoções e que, mesmo a consciência rejeitando, a vontade não conseguiria suprimir. Morel (1809-1873) descreveu o quadro como uma doença das emoções, uma neurose resultante de um estado afetivo exacerbado, não afetando as faculdades intelectuais. A categoria “delírios emotivos” englobava idéias fixas, medos imotivados, fobias, disforias, sintomas somáticos e impulsos”.  Em 1903, Pierre Janet (1859-1947) descreveu 325 caos da “doença obsessiva”. Para ele, as obsessões, situadas no terreno das “neuroses” e causadas pela redução da tensão psicológica, constituiriam uma forma simples e rudimentar de atividade mental. Ele não acreditava que a ansiedade justificasse os problemas de volição, percepção e atenção dos pacientes, mas que era fenômeno secundário, assim como outras “agitações forçadas”, como tiques, ruminações, “manias” e fobias. Seu conceito de psicastenia, envolvendo diferentes níveis de tensão psicológica e uma hierarquia de fenômenos psicológicos, muito amplo, incluía vários desses “equivalentes da ansiedade”.


Emil Kraepelin (1856-1926) também atribuiu a um aumento da susceptibilidade emocional a gênese das idéias obsessivas, destacando que não só o intelecto não estaria comprometido, mas que poderia ser “excepcionalmente bom”. Straus, discutindo se as compulsões constituiriam perturbação do sentimento ou do pensamento, concluiu que o paciente não experimentaria alteração de uma função psicológica específica, mas uma “vivência de estar no mundo” alterada. Von Gebsattel também afirmava ser a “fobia anancástica” apenas um sintoma secundário à perturbação mais básica do paciente em suas relações com o mundo. Tal perturbação precederia o fenômeno fóbico, constituindo sua base e entregando-o ao “mundo da ansiedade”.

As teorias psicanalíticas estabeleceram para as idéias obsessivas uma função defensiva contra a ansiedade associada a desejos ou impulsos inaceitáveis. Já para as teorias comportamentais, a função redutora da ansiedade seria responsável pela manutenção da ocorrência das compulsões. Para Mowrer a ansiedade é condicionada a certos estímulos e aliviada por comportamentos compulsivos, que são assim reforçados a se repetirem, num mecanismo de condicionamento operante. As obsessões aumentam a ansiedade, ocorrendo automaticamente em resposta a um estímulo provocador, enquanto as compulsões ocorrem como reação, aliviando a ansiedade temporariamente, podendo ter caráter preventivo ou restaurativo. Uma vez que evitam ou reduzem o desconforto são, funcionalmente, comportamentos de esquiva, que tendem a não se extinguir ou a se fixar tanto mais quanto mais desagradável for o estímulo. Por limitarem o contato com o estímulo provocador de ansiedade e com isso impedirem a habituação, os rituais preservariam a resposta de medo, enquanto a imediata redução da ansiedade após os rituais produziria um ciclo difícil de ser rompido. 
 
 
 
Causas
 
Uma das hipóteses sugeridas é o modelo etológico: existem semelhanças entre sintomas obsessivo-compulsivos (OC) e vários comportamentos animais instintivos adaptativos. Compulsões de limpeza se assemelham a comportamentos de higiene (grooming) e rituais de verificação lembram estratégias de preservação da segurança e de manutenção dos limites territoriais de várias espécies, rituais de colecionamento parecem comportamentos das aves para confecção de ninhos ou de roedores para estocagem de alimentos.


As hipóteses neurobiológicas associam estes transtornos a doenças neurológicas, com alterações neuropsicológicas, neuroimunológicas, de neuroimagem e da neuroquímica. Anormalidades estruturais e funcionais nos núcleos da base (particularmente do caudado e putamen) parecem estar associadas aos sintomas do TOC, bem como transtornos auto-imunes neuropsiquiátricos relacionados a infecções estreptocócicas (infecção das amígdalas, na garganta). Observaram-se evidências de hipersensibilidade dos receptores pré-sinápticos nos neurônios localizados na via serotonérgica mesoestriatal, que pode ser responsável pela desinibição do circuito caudato-tálamo-cortical (núcleos da base) e relacionados aos sintomas OC.

Existem evidências de maior acometimento precoce dos indivíduos (principalmente na infância, com predominância de meninos) e por volta dos 17-20 anos de idade, com predominância de meninas (não se conhecem ainda bem os motivos de tal diversificação), de envolvimento genético na etiologia (estudos de gêmeos e de famílias), homogeineidade sintomatológica transcultural e trans-histórica, má resposta a psicoterapias psicodinâmicas e bons resultados com técnicas cognitivo-comportamentais e terapêuticas farmacológicas.  Nos idosos os achados são mais raros, geralmente os portadores de TOC envelhecem com uma tendência de arrefecimento dos sintomas, mas sem que desapareçam por completo. Os quadros que surgem pela primeira vez na velhice devem imediamente levantar a suspeita de que alguma patologia orgânica esteja por detrás desta sintomatologia: demências (em particular a Doença de Alzheimer), doenças cerebrovasculares (isquemias, AVCs), tumores cerebrais, doenças infecciosas ou viróticas do encéfalo, AIDS, demais doenças degenerativas, neurocisticercose, etc.
 
 
 
Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo (TEOC)

Recentemente, observou-se presença aumentada de TOC, Síndrome de Tourette (ST) e transtorno de déficit de atenção de hiperatividade (TDAH) em pacientes com coréia de Sydenham (CS) e em pacientes em fase aguda de febre reumática. A febre reumática é uma complicação da infecção pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A. A hipótese mais provável para a etiologia da doença é que uma resposta humoral e/ou celular a certos elementos antigênicos da bactéria resulte em reações cruzadas com tecidos cardíacos, articular e neuronal, produzindo as três formas da doença: cardite reumática, poliartrite e coréia de Sydenham. A CS ocorre em 10 a 30% das crianças com febre reumática e se caracteriza pela presença de movimentos rápidos, irregulares e despropositados de face, tronco e membros, hipotonia muscular, dificuldades da fala e da marcha, labilidade emocional e outras manifestações psicopatológicas. Todas estas doenças têm em comum o comprometimento dos gânglios da base no cérebro.

Os transtornos de tiques são movimentos repentinos e repetitivos que mimetizam um fragmento de um comportamento normal. Eles tendem a ocorrer em crises ou com pequenos intervalos entre eles, variando em intensidade. Os tiques normalmente diminuem durante o sono ou atividades que necessitam de concentração. Ansiedade, cansaço e excitação estão associados a aumento na gravidade dos tiques. Quando os tiques são motores e vocais crônicos são chamados de Síndrome de Tourette (ST). Esta patologia pode atingir até 1% de crianças e jovens entre 6 a 17 anos. Os pacientes, além dos movimentos descoordenados, repentinos e impulsivos, podem emitir gritos, chingamentos involuntários e agressões verbais. O sucesso dos tratamentos farmacológicos de tiques e ST deu um novo alento e esperança para o prognóstico destes casos. Medicamentos antipsicóticos atípicos (de última geração), como a risperidona, ziprazidona, olanzapina, quetiapina e aripiprazol, são alguns dos mais eficazes na melhora destes quadros.

O Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) é um transtorno somatoforme, caracterizado pelo sentimento subjetivo e difuso de fealdade, ou por um defeito imaginado específico na aparência, como um nariz grande, por exemplo, apesar de a pessoa ter uma aparência normal. É forte a crença ou o medo de não ser atraente, ou mesmo de ser repulsivo. Raramente este medo é aliviado por elogios ou apoio de parentes ou amigos. Na tentativa de examinar, esconder ou modificar o defeito específico percebido, a maioria dos pacientes com TDC realiza comportamentos compulsivos ou repetitivos, como se olhar freqüentemente no espelho, maquiar-se de forma excessiva ou ir com freqüência a profissionais de saúde, sobretudo dermatologistas, cirurgiões plásticos ou odontologistas. Também solicitam de forma compulsiva, a opinião de familiares e amigos sobre sua aparência. Mesmo que o defeito seja discreto na aparência, a preocupação é desproporcional ao grau do defeito. É um transtorno grave e traz prejuízo funcional em vários aspectos da vida do indivíduo, principalmente devido aos rituais para camuflagem do defeito, recusa em ir à escola ou ao trabalho ou evitação de situações sociais e relacionamentos. Estes transtornos respondem bem ao tratamento com antidepressivos como a clomipramina e os inibidores da recaptação da serotonina (fluoxetina, sertralina, citalopram e paroxetina).

A tricotilomania é um dos transtornos dos impulsos, caracterizada por episódios recorrentes de arrancar fios de cabelo, resultando em grande perda. Ocorre tensão crescente precedendo o ato de arrancar ou durante a tentativa de resistir a este impulso; gratificação, prazer ou redução da tensão associados ao ato de arrancar os cabelos; sofrimento significativo ou prejuízo social, ocupacional, ou de outra área importante do funcionamento causado pela perda de cabelo; determinação de que o ato de arrancar os cabelos não é resultado de uma condição médica geral ou outro distúrbio mental. Os tratamentos mais eficazes para esta patologia incluem a psicofarmacoterapia (antidepressivos do grupo dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina – fluoxetina, sertralina, etc.) e terapia comportamental.


Os transtornos dos impulsos englobam, entre outros, as compulsões para comprar, fazer sexo em excesso, parafilias (compulsões para certas perversões sexuais, como pedofilia), jogo patológico, ingerir compulsivamente bebidas alcoólicas ou drogas potentes, cleptomania (furtar objetos sem que haja a menor necessidade dos mesmos), piromania (atear fogo a móveis, residências, etc.), transtorno explosivo intermitente, onicofagia (roer unhas). Nestes transtornos não há cognições antecedendo as ações repetitivas, como é habitual no TOC, mas apenas uma sensação de premência incontrolável. O indivíduo experimentaria mais prazer (e não apenas alívio de tensão) durante a execução, mesmo em geral ocorrendo vergonha e arrependimento posteriores.
Os transtornos alimentares também partilham de certas semelhanças clínicas com o TOC. Enquanto a bulimia nervosa pode ser considerada um transtorno de controle do impulso alimentar, a anorexia nervosa assemelha-se a um transtorno dismórfico com grave distorção da imagem corporal, mas relacionada ao peso e vários comportamentos ritualísticos, porém com maior prejuízo da crítica.


 

 
Estas são cenas da peça de teatro Toc Toc, escrita pelo francês Laurent Baffie, que aborda de forma divertida um grupo de pacientes portadores do TOC, na sala de espera de seu psiquiatra. Com a demora do médico em atendê-las, a solução encontrada foi fazer uma terapia em grupo, realizada ali mesmo, na sala de espera, cada um falando de seu problema. O convívio leva a crises e brigas, extremamente divertidas (apesar de ser um assunto extremamente sério).
A peça tem produção de LG Tubaldini Jr, da Filmland Internacional, direção de Alexandre Reinecke e elenco formado por Andréa Mattar, Ariel Moshe, Carolina Parra, Didio Perini, Gustavo Vaz, Maria Helena Chira e Sandra Pêra. Esta peça esteve em cartaz no Teatro Anhembi Morumbi, de São Paulo, no início de 2012. 
 
 
Tratamentos Farmacológicos 

O tratamento medicamentoso constitui-se em elemento fundamental para o combate efetivo ao TOC. O tratamento psicofarmacológico se baseia no uso de antidepressivos serotoninérgicos, sejam eles tricíclicos (clomipramina) ou inibidores seletivos da recaptação da serotonina – ISRS - (fluoxetina, fluvoxamina, sertralina, paroxetina, citalopram). A resposta terapêutica independe da presença ou não de uma depressão associada. O uso destes medicamentos não é incompatível com uma abordagem psicoterápica, pelo contrário, a associação de ambos pode facilitar uma recuperação mais rápida do paciente. Os tranqüilizantes benzodiazepínicos (diazepam, clonazepam, alprazolam, bromazepam, etc.) não têm papel central no tratamento e podem mesmo atrapalhar o processo de descondicionamento nas técnicas comportamentais e causar dependência, principalmente em pacientes com história de abuso de substâncias. Seu uso dese se restringir a casos ou situações excepcionais e apenas como coadjuvantes.

As doses de antidepressivos são muito variáveis, mas costumam ser mais altas do que as utilizadas no tratamento da depressão e o tempo de início de ação terapêutica dos mesmos pode chegar até a 12 semanas. Como muitos deles têm custo elevado, já podem ser encontrados em sua grande maioria na formulação genérica, com custo mais baixo. Pacientes que não respondem a um tipo de ISRS podem responder a outros.  

Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) 

A TCC é indicada em casos leves a moderados e hoje é considerada a primeira indicação no seu tratamento. A abordagem comportamental é mais indicada em quadros compulsivos com rituais e entre suas técnicas encontra-se: 1- a exposição prolongada e repetida aos estímulos ansiogênicos, com prevenção das respostas ritualizadas; 2- exposição ao objeto temido (in vivo ou por imaginação) que leva à habituação, isto é, à redução gradual até a extinção das reações de desconforto emocional frente a situações específicas, sem necessidade de recorrer às compulsões para esse fim; 3- prevenção de respostas que impede a realização dos rituais. O paciente é estimulado a fazer o oposto do que costuma como pensar aquilo que evita, e evitar o que sempre faz para se sentir melhor. Tudo isso tem por objetivo fazer com que o sofrimento gerado por essa confrontação aos poucos se amenize, até ser eliminado.

Do ponto de vista cognitivo, como os obsessivos cometem erros de inferência e avaliação da probabilidade de perigo, trabalha-se com o objetivo de substituir os pensamentos negativos disfuncionais automáticos, considerados importantes na ocorrência e manutenção das compulsões, por pensamentos mais realísticos e adequados à diferentes situações. Os aspectos cognitivos mais importantes no TOC são: estimativa de riscos, responsabilidade, perfeccionismo, hipervalorização do papel dos pensamentos e da necessidade de controle sobre eles, e intolerância à incerteza. As técnicas cognitivas são muito importantes nos casos de pacientes que não aderem ou não respondem a abordagens comportamentais exclusivas, que só apresentam obsessões, que têm maior prejuízo da crítica ou sintomas depressivos graves associados. Elas focalizarão nos pensamentos automáticos, nas crenças disfuncionais, nas antecipações catastróficas e nas tentativas de neutralização das obsessões.